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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Hans Staden fala sobre sua passagem por Florianópolis e sobre antigas aldeias indígenas da região

Por: Bruno Farias - Florianópolis/SC - 25/09/2009

A maioria das pessoas não sabe, mas antes de ser capturado pelos Tupinambás canibais no atual estado de São Paulo e de escrever um dos maiores clássicos da história do país, “Viagem ao Brasil”, o aventureiro alemão Hans Staden esteve onde hoje é a capital de Santa Catarina. Um fato interessante de sua passagem pela região é o relato sobre uma aldeia indígena chamada “Cotia”, localizada aproximadamente entre os atuais municípios de São José e Palhoça, desconhecida para muitos dos descendentes dos índios Carijós que, na época, receberam o mercenário alemão. Abaixo segue uma reprodução de trechos do livro de Hans Staden, traduzido e reimpresso pela editora Martin Claret em 2007, onde ele conta sobre sua passagem pelo estado ainda selvagem:

Como chegássemos ao grau 28, disse o capitão ao piloto que entrasse por detrás de uma ilha e deitasse âncora, a fim de ver em que terra estávamos. Entramos, então, entre duas terras, onde havia um porto excelente, deixamos a âncora ir ao fundo e deliberamos tomar o bote para melhor explorar o porto.

Foi no dia de Santa Catarina, no ano de 1549, que deitamos âncora, e, no mesmo dia, alguns dos nossos, bem municiados, saíram no bote para explorar a baía. Começamos a pensar que fosse um rio, que se chama rio de São Francisco, situado na mesma província, pois que, quanto mais entrávamos, mais comprido parecia.

Olhávamos de vez em quando, a ver se descobríamos alguma fumaça, porém nada vimos. Finalmente, pareceu-nos ver algumas cabanas e para lá nos dirigimos, a passar a noite, julgando haver ali um abrigo. Chegamos à ilha, já noite; não podíamos, porém, arriscar-nos a irmos à terra, pelo que alguns dos nossos foram rodeá-la a ver se por ali havia gente, porque as cabanas eram disto um indício.

Adiantando-nos vimos ao longe, sobre uma rocha, um madeiro, que nos pareceu uma cruz e não compreendíamos quem a teria posto ali. Chegamos a ela e achamos uma grande cruz de madeira, apoiada com pedras e com um pedaço de fundo de barril amarrado, e, neste fundo, gravadas umas letras que não podíamos ler, nem adivinhar qual navio que teria erigido essa cruz; e não sabíamos se era este o porto onde devíamos nos reunir.

Continuamos então rio acima e levamos o fundo do barril. Durante a viagem, um dos nossos examinou de novo a inscrição e começou a compreendê-la. Estava ali gravado em língua espanhola – SI VEHN POR VENTURA, ECKY LA ARMADA DE SU MAJESTET TIREN UHN TIRE AY AUERAN RECADO (si viene por ventura aquí la armada de su Majestad, tiren um tiro y habrán recado). Isto quer dizer: se por acaso aqui vierem navios de sua majestade, dêem um tiro e terão resposta
”.

Como consta no mapa da Ilha de Santa Catarina existente no livro “Viagem ao Brasil”, a cruz relatada por Hans Staden estava num dos primeiros morros a oeste do estreito entre a ilha e o continente. Em 1997 surgiu a idéia de se fazer um monumento em homenagem ao alemão no atual Portal Turístico, já que ele traçou provavelmente um dos primeiros mapas de Florianópolis e do continente fronteiriço... Seguem as palavras de Staden:

Voltamos então sem demora para a cruz e disparamos um tiro de peça, continuando depois, rio acima, a nossa viagem. Pouco depois, vimos cinco canoas com selvagens, que vieram sobre nós, pelo que apontamos as nossas armas. Chegando mais perto, vimos um homem vestido e barbado que vinha à proa de uma das canoas e nos parecia cristão. Gritamos-lhe para fazer alto às outras canoas e vir com uma só a conversar conosco.

Quando se nos aproximou, perguntamos-lhe em que terra estávamos; ao que nos respondeu que estávamos no porto de Schirmirein [Jurumirim, nome dado pelos Carijós à boca do norte do canal que fica entre a ilha e o continente. Em tupi, juru-mirim significa boca pequena, baía], assim denominado pelos selvagens, e para melhor entendermos, acrescentou chamar-se Santa Catarina, nome dado pelos descobridores. Alegrou-nos muito isto, porque este era o porto que procurávamos, sem conhecer que já nele estávamos, coincidindo ser isso no mesmo dia de Santa Catarina. Vede, pois, como Deus socorre aquele que no perigo o implora com fervor.

Então nos perguntou ele de onde vínhamos, ao que respondemos que pertencíamos à armada do Rei da Espanha, em caminho para o Rio da Prata, e que havia mais navios em viagem, que esperávamos, com Deus, chegassem logo para nos unirmos a eles. A isto respondeu ele que estimava muito e agradecia a Deus, porque havia três anos que tinha saído da província do Rio da Prata, da cidade chamada La Sonción [Assunção, capital do Paraguai], pertencente aos espanhóis, por ter sido mandado à costa, cidade distante 300 milhas do lugar onde estávamos, para fazer com os Carijós, que eram amigos dos espanhóis, plantassem raízes que se chamam mandioca e suprissem as naus que disso precisassem. Eram essas as ordens do capitão que levara as últimas novas à Espanha e se chamava Salaser [João de Salazar] e que agora voltava com outras naus.

Acompanhados então dos selvagens até as cabanas onde ele morava, ali fomos bem tratados. Pediu então o nosso capitão ai homem, que achamos entre os selvagens, que mandasse vir uma canoa, com gente que levasse um de nós à nau, para que esta também pudesse vir. Ordenou-me que seguisse com os selvagens até a nau, ausentes dela como estávamos já três noites, sem que a gente de bordo soubesse que fim tínhamos levado
”.

Carlos Fausto conta em seu livro “Os Índios Antes do Brasil” sobre serem comuns as referências a frotas de 50 a 200 canoas que podiam transportar, cada uma, entre 20 e 25 índios. Muitas vezes essas “flotilhas” eram usadas para fins bélicos: de acordo com os relatos do próprio Hans Staden, os Tupinambás faziam viagens de vários quilômetros por mar utilizando tais canoas para atacar tribos inimigas. E pelo jeito essa forma de transporte também costumava ser usada pelos indígenas de Santa Catarina...

Quando cheguei à distância de um tiro da nau, fez-se lá um grande alarido, pondo-se em guarda a maruja e não consentindo que mais perto chegássemos com a canoa. Gritaram-me, indagando o que havia acontecido, onde ficaram os outros e como é que vinha eu sozinho naquela canoa cheia de selvagens. Calei-me; não respondi, porque o capitão me ordenara que fingisse estar triste e observasse o que se fazia a bordo.

Como lhes não respondi, diziam lá entre si: ´Aqui há coisa; os outros, decerto, estão mortos e estes agora vêm com aquele só, para armar-nos uma cilada e tomar o navio”. Queriam então atirar contra nós, porém chamaram-me ainda mais uma vez. Comecei então a me rir e lhes disse que ficassem tranqüilos, pois que lhes trazia boas novas, e com isso permitiram que eu me aproximasse. Contei então o que se tinha passado, o que muito os alegrou, e os selvagens voltaram sozinhos. Seguimos logo com a nau até perto das cabanas, onde fundeamos, à espera das outras naus, que se tinham desgarrado por efeito da tempestade.

A aldeia onde moravam os selvagens chamava-se Acuttia [cotia] e o homem que lá achamos chamava-se João Fernandez Biscainho, da cidade de Bilbao. Os selvagens eram Carijós e trouxeram-nos muita caça e peixe, dando-lhes anzóis em troca
”.

Esse último trecho do relato de Hans Staden é interessantíssimo devido ao fato de que a aldeia Cotia hoje é desconhecida até para os próprios indígenas. De acordo com um texto escrito por Milton Moreira Wherá Mirim, então cacique da aldeia dos índios guarani Mbyá de São Miguel (os últimos Guarani-Karijós a manterem até hoje seu idioma nato), localizada em Biguaçu, antes da chegada dos europeus existiam as aldeias de “Tekoa Guassú-Há-Há-Kupé” (Cacupé), “Itakuruii” (Itacorubi), “Pira’júmboiaé” (Pirajubaé) e “Mossamby” (Moçambique). Infelizmente, também de acordo com o cacique Milton, dos mais de 2000 nativos que originalmente habitavam a ilha, a grande maioria sucumbiu graças às doenças trazidas pelo homem branco.

Com cerca de três semanas de espera, chegou-nos a nau em que vinha o primeiro piloto; mas a terceira nau era perdida de todo e nada mais soubemos dela. Aparelhamos, então, para sair e fizemos provisão para seis meses, pois havia ainda cerca de 300 léguas de viagem por mar. Quando tudo estava prestes, aconteceu-nos perder a nau grande no porto, o que impediu a nossa partida”.

O trecho da baía sul onde o barco afundou seria nas imediações do atual Naufragados, local conhecido por ser um cemitério de navios. Acredita-se que o achado mais recente, uma âncora encontrada no fundo da baía, possivelmente possa ser da embarcação utilizada por Sebastião Caboto.


Ficamos aí dois anos no meio de grandes perigos e sofrendo fome. Tínhamos que comer lagartos, ratos de campo e outros animais esquisitos, que lográvamos colher, assim como mariscos que vivem nas pedras e muitos bichos estravagantes. Os selvagens que nos davam mantimentos, só o fizeram enquanto recebiam presentes de nossa parte; fugiram depois para outros lugares e como não podíamos fiar-nos neles, dissuadimo-nos de aí continuar com perigo de perecer.

Deliberamos, pois, que a maior parte dos nossos devia ir por terra para a província de Sumption [Assunção, que por algum motivo Staden chamou aqui de maneira diferente], daí distante cerca de 300 milhas. Os outros iriam no navio que restava. O capitão conservava alguns de nós, que iriam por água com ele. Os que iam por terra levavam mantimentos e alguns selvagens. Muitos deles, é certo, morreram de fome no sertão; mas os outros chegaram ao seu destino como depois soubemos...


Tempos depois de passar pela atual Florianópolis, Staden foi capturado pelos Tupinambás antropófagos da região sudeste do Brasil. Apesar de existirem relatos de antropofagia entre os índios da região de Assunção, no Paraguai, e entre os Tupinambás do centro-oeste e do nordeste brasileiros (entre muitas outras tribos das Américas), Staden foi muito bem tratado pelos Carijós de Santa Catarina.

A Carioca, localizada no centro histórico de São José (e que também existe na Fortaleza de São José da Ponta Grossa, em Jurerê), é um nome indígena, que significa “casa do branco” (cari=branco, oca=casa em guarani – os índios logo associaram o estoque de água às residências dos colonizadores). E o nome do bairro Itaguaçu, por exemplo, significa “Pedra Grande” (ita=pedra, guaçu=grande). Esses e muitos outros lugares da Grande Florianópolis têm até hoje nomeações baseadas em palavras de origem indígena, não só aqui como em todo o Brasil.
Tudo isso, além do relato do cacique Milton, ajuda a reiterar a idéia de que houve ocupação indígena por toda a região, e não só nos lugares onde estão localizadas as aldeias de hoje. Porém, apesar de todos esses indícios, não se pode afirmar muita coisa a esse respeito sobre os antigos Carijós catarinenses já que não restaram muitos relatos sobre o modo de vida daqueles nativos. Não existia escrita entre eles, e apesar de terem restado alguns relatos orais sobre sua cultura e sua história, muito se perdeu nesse meio tempo.

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