
Situação não muito diferente do Rio Grande do Sul, que também foi castigado com enchentes neste início de ano e possui um largo histórico de casos semelhantes. Um deles ocorreu em 1754, durante as Guerras Guaraníticas, quando o rio Jacuí transbordou e obrigou o exército português a subir nas árvores para se proteger das águas. E o pior: justamente enquanto os índios armavam uma ofensiva contra os colonizadores.
"O coronel Miguel Angelo Blasco, engenheiro e quartel-mestre general do exército de Gomes Freire, pintou três quadros do acampamento inundado. Este interessantíssimo material foi publicado, em 1931, pelo General Borges Fortes". (Legenda e imagens originais: www.cienciaeaarte.blogspot.com / Edição: Bruno Farias)
Segundo José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em história ambiental, é preciso ter uma visão menos antropocêntrica sobre estes desastres. “Não é nenhuma novidade que aconteçam inundações e tempestades, apesar de certa estabilidade climática dos últimos 10 mil anos, que está sendo minada pelo aquecimento global”, diz.
A “novidade” é justamente a percepção da ação humana como parte fundamental do imprevisível jogo climático. Nos casos das enchentes
“Até o Iluminismo, a visão do clima estava atrelada a uma perspectiva religiosa. Foram os cientistas ilustrados que começaram a discutir a importância da ação humana no clima, a partir do século XVII e XVIII. Um marco disto é a teoria do dessecamento, que foi desenvolvida naquela época na Inglaterra e na França. Ela diz que a redução da vegetação nativa diminui as chuvas e, portanto, provoca a desertificação. A percepção da mudança climática pela ação do homem se dá no contexto da modernidade”, analisa José Augusto Pádua
As mortes por conta do desabamento de encostas, por exemplo, podem ser diminuídas mantendo a vegetação nestas áreas. “A presença de floresta diminui bastante o risco de a encosta ser derrubada. Mas a natureza é tão potente que isto pode acontecer mesmo sem grandes desmatamentos, como foi o caso do acidente
Para ele, pensar políticas habitacionais mais integradas ao meio ambiente é uma tarefa incontornável para evitar mais desastres climáticos. “É preciso nos localizarmos de maneira inteligente”, conclui. E, para isto, não basta que subamos nas árvores, tal como os portugueses durante a cheia do rio Jacuí.
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