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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Rio Jacuí já causava problemas em 1754

A enchente ocorrida em janeiro de 2009 no Rio Grande do Sul deixou um enorme número de estragos: 14 cidades decretaram situação de emergência, e no total 57 municípios sofreram prejuízos[1]. O número de desabrigados ou desalojados já chegou a mais de 1000[2], e 10 pessoas chegaram a ficar desaparecidas devido à queda da ponte que cruza o Rio Jacuí em Agudo/RS[1]. Porém as alterações no nível desse curso d´água não são novidade: elas atrapalharam os militares que combatiam os jesuítas já no século XVIII[3].

Na época das Guerras Guaraníticas, quando uma comissão demarcadora de fronteiras formada por portugueses e espanhóis tentava chegar às Missões após o Tratado de Madri[6], o exército de Gomes Freire de Andrade, o Conde de Bobadela, precisou ficar acampado sobre as árvores devido a uma cheia nesse mesmo rio[3] denominada “enchente de São Miguel”[7]. De acordo com Guilhermino Cesar, em “Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605-1801” (Editora da URGS, 1981), “o episódio adiante referido não tem símile em nossa história”. Vejamos então, a partir do relato escrito em 1755 pelo oficial do exército português Manuel Martins dos Santos, reproduzido por Cesar, alguns pormenores a respeito desse fato que ficou registrado nos anais da história do Rio Grande do Sul[3].

Depois de dois ataques feitos sem sucesso pelos indígenas à fortaleza de Santo Amaro[3], erguida em 1737 no atual município de Santo Amaro/RS[5], reforços foram enviados até o local para que este pudesse ser mantido como domínio de Portugal. A fortificação na época era guarnecida por pouco mais de 20 soldados, 30 açorianos vindos de Santa Catarina, 4 peças de artilharia, e uma Companhia de granadeiros que totalizavam mais de 130 pessoas, enquanto os índios Tapes comandados pelos padres jesuítas atacavam aos milhares: “...cinco, ou seis mil armados de cavalos, lanças, flechas, e armas de fogo, algumas catanas, fundas, laços e bolas...” estimava dos Santos[3].

Após transporem 84 das 100 léguas (ou 504 dos 600 km, aproximadamente) previstas entre Santa Catarina e o forte, as tropas da comissão foram impedidas de seguirem adiante pelos nativos, que alternavam momentos de paz e de luta com os invasores como se soubessem sobre a cheia que estava por vir e tentassem ganhar tempo: “...um dia se ajuntaram quinhentos ou setecentos conforme a fazerem uma feira de ladra [feira de trocas famosa em Portugal] conosco a venderem seus cavalos muito ruins, e mulas, sebo, sabão tudo incapaz; mas o retorno que levavam era pior, chapéus velhos, botões de farda e outros trastes semelhantes; ao outro dia apareceram-nos de guerra com desafios, bandeiras encarnadas [vermelhas], cometendo-nos a guarda avançada, sem nunca lhes apresentarmos mais que uma Companhia de granadeiros, mediatamente que a viam já botavam bandeira de paz e mandavam suas embaixadas, e no outro dia já negócio, e outra noite assalto, e no outro já fazendo negócio, que parecia isto mais comédia do que guerra...” contou dos Santos[3].

O autor falou então da cheia que surpreendeu os militares às margens do Jacuí: “...cresceu o rio de tal sorte que nos comunicávamos pelos campos e nos abarracávamos em canoas, que para isso se fizeram vinte e quatro; que chegou a tanto mais de cem jiraus, e desta sorte nos conservamos (...) e os [que] estávamos com o Coronel Alpoim na margem do norte nos vimos em tal consternação, que na retaguarda tínhamos o rio, na vanguarda os campos alagados com seis [a] sete palmos [entre 1,3 e 1,5 m] de água e na frente destes uma lomba distante de meia légua [por volta de 3 km], em que estava o Gentio alampado [de fogueiras acesas], fortificado com grande estacada (...) Da barraca de Sua Excelência[3] [Gomes Freires de Andrade[6]], que é a que estava mais superior, com pouca diferença de dentro dela se bebia água com a mão do rio; e neste estado nos conservamos até vinte de novembro...”[3].

A situação, segundo dos Santos, se tornou crítica e os exércitos precisaram recuar sem atingirem seus objetivos devido à falta de cavalos e gado o suficiente para prosseguirem com a marcha: “...nos retiramos por ordem que teve Sua Excelência do Governador de Buenos Aires (...) e do lugar que nos chegávamos havia quatorze léguas [em torno de 84 km] às missões, e um dia à primeira estância, Sua Excelência vendo isso mandou chamar os caciques todos, e fez abaixo-nós-assinados em língua castelhana e tape para que nenhum passasse do dito rio para a parte do Norte (...) como nós também para a outra banda, e aqui nos achamos neste Rio Grande retirando-nos”. O oficial também lamentou a saída forçada, reclamando de terem que se contentar apenas com chegarem aos pés das Missões e verem o “gentio”, e do tempo que demoraria até que uma nova tentativa de invasão pudesse ser feita[3].

O relato de 1754 não mencionou nenhuma morte ou maiores prejuízos diretamente causados pela enchente[3], apesar de um dos ataques feitos pelos índios Tapes ter vitimado mais de duzentas pessoas[3, 6]. Mas após o desenvolvimento da região no entorno do rio Jacuí e o crescimento de sua população ribeirinha, cheias desse tipo naturalmente acabam originando mais tragédias[4] como a de janeiro de 2010. O Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil continuam trabalhando dia e noite para amenizar as perdas no Rio Grande do Sul ocorridas nos últimos dias[1], e depois disso os municípios afetados passarão por um longo e doloroso período de recuperação. Porém infelizmente as vidas humanas ceifadas nessa ocasião nunca poderão ser substituídas. Cabe agora ao poder público implantar políticas que evitem outro episódio fatídico dessa magnitude.
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IMAGENS:
1 Cruzando o Rio Jacuí em Cachoeira do Sul/RS – Bruno Farias
2 Retrato 1 de Gomes Freire de Andrade http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Gomes_Freire_de_Andrade.jpg
3 Padre jesuíta
4 Retrato 2 de Gomes Freire de Andrade – História do Exército Brasileiro – Serviço Gráfico da Fundação IBGE, tomo 1 (1972)
5 Enchente de São Miguel no Rio Jacuí - Coronel Miguel Angelo Blasco (1754) http://cienciaeaarte.blogspot.com/2009/04/registros-de-imagens-sobre-o-tempo.html 6 Imagem de satélite do Rio Jacuí – Prefeitura de Porto Alegre http://www2.portoalegre.rs.gov.br/metroclima/default.php?reg=347&p_secao=6 +
+REFERÊNCIAS:
1 O GLOBO – 07/01/2009 - Achado primeiro corpo no Rio Jacuí, no Rio Grande do Sul http://moglobo.globo.com/integra.asp?txtUrl=/cidades/sp/mat/2010/01/07/achado-primeiro-corpo-no-rio-jacui-no-rio-grande-do-sul-915480339.asp
2 Notícias sobre desabrigados na cheia do Rio Jacuí – 07/01/2009 - http://www.google.com.br/search?sourceid=navclient&hl=pt-BR&ie=UTF-8&rlz=1T4GGLL_pt-BRBR324BR324&q=rio+jacu%c3%ad+desabrigados
3 Guilhermino César – Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul - p146
4 Análise da ocorrência de enchentes na área de abrangência do rio Jacuí /RS com a utilização de imagens modis e dados srtm – Carline Biasoli Trentin et al. http://plutao.dpi.inpe.br/dpi.inpe.br/plutao@80/2008/12.18.16.19
5 Forte de Santo Amaro – Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_Santo_Amaro
6 Basílio da Gama – O Uraguai – Organização e apresentação de Luís Augusto Fischer7 Registros de imagens sobre o tempo meteorológico - Paulo Jolar Pazzini Galarça http://cienciaeaarte.blogspot.com/2009/04/registros-de-imagens-sobre-o-tempo.html
- Medidas de superfície http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/medidas-de-superficie/medidas-de-superficie.

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